A economia da obediência

Estou me preparando para um momento muito especial, tanto pessoal quanto profissionalmente.

Entre os dias 3 e 7 de setembro, em data ainda a ser confirmada pela organização do HackTown 2026, apresentarei oficialmente ao mercado a INA — Inteligência Neuroartificial™, modelo sob domínio de propriedade intelectual e patente, que nasce de uma trajetória de mais de uma década dedicada ao desenvolvimento humano, à educação e à construção de novas formas de olhar para aquilo que os indicadores tradicionais não conseguem enxergar.

Como meu tema prioritário nos últimos 11 anos tem sido a educação — e como esta é uma das áreas mais impactadas pela INA — tenho lido, pesquisado e buscado conteúdos que possam dialogar com aquilo que venho defendendo há tanto tempo.

Há pouco, assisti a uma reportagem sobre uma escola pública que passou a usar um sistema criado por um professor e, segundo ele, com participação dos próprios alunos.

Na prática, funciona como uma espécie de jogo da vida escolar: um sistema inspirado em videogames, no qual os alunos acumulam ou perdem pontos, avançam ou caem em ligas, aparecem em rankings e recebem reconhecimento por presença, participação, dedicação aos estudos e bom comportamento.

A proposta também transforma registros do cotidiano — frequência, engajamento, conduta e alunos em situação de atenção — em painéis para a gestão escolar.

Ou seja: não é apenas um jogo. É uma forma de converter a vida escolar em métrica, recompensa e perda.

À primeira vista, a ideia parece boa.

Mas é justamente aí que ela fica interessante — e perigosa.

Quem não quer uma escola mais engajada?

Quem não quer alunos mais motivados?

Quem não quer transformar presença, participação e convivência em algo mais visível?

Eu entendo o esforço. E respeito.

A escola precisa mesmo sair da anestesia. Precisa falar a linguagem do tempo. Precisa reconhecer que os alunos de hoje habitam mundos interativos, digitais, rápidos, responsivos. Mundos em que há fases, desafios, recompensas, avatares, rankings e conquistas.

Mas confesso: algo me inquieta.

Porque nem tudo que se parece com inovação transforma, de fato, a educação.

Às vezes, apenas colocamos uma roupa nova em uma lógica antiga.

Mudamos o quadro-negro por uma tela. A advertência por uma pontuação. A fila por um ranking. A disciplina por uma liga. A obediência por um badge.

E seguimos medindo a criança pelo quanto ela consegue caber no sistema.

O problema não é o jogo.

O problema é quando o comportamento vira moeda.

Quando presença vira crédito. Quando silêncio vira saldo positivo. Quando inquietação vira débito. Quando uma brincadeira vira perda de pontos. Quando uma atitude isolada passa a definir o valor simbólico de uma criança dentro da escola.

É aí que nasce aquilo que chamo, com preocupação, de economia da obediência.

Uma economia em que o aluno aprende que se comportar bem rende. Que caber na regra rende. Que parecer adequado rende. Que performar adesão rende.

E, do outro lado, aprende que errar, testar limites, se inquietar, provocar, brincar fora da moldura ou simplesmente não corresponder ao comportamento esperado pode custar caro.

Pode custar ponto. Pode custar posição. Pode custar reconhecimento. Pode custar pertencimento.

E aqui mora uma questão pedagógica profunda: o aluno arteiro nem sempre é mal-educado.

Muitas vezes, ele é criativo. Muitas vezes, está testando limites. Muitas vezes, está tentando pertencer. Muitas vezes, está criando relação do jeito que consegue. Muitas vezes, está pedindo mediação — não silenciamento.

Claro: não se trata de romantizar agressões, desrespeito ou violência.

Limite é parte essencial do desenvolvimento humano.

Mas há uma diferença enorme entre mediar um gesto e apenas classificá-lo.

Uma criança que cola uma fita no rosto de um colega pode estar agredindo? Pode.

Pode estar brincando? Também pode.

Pode estar tentando fazer graça? Pode.

Pode ter passado do limite sem perceber? Pode.

Pode ter encontrado no riso do outro uma forma de vínculo? Pode.

Pode ter incomodado profundamente o colega? Também pode.

A pergunta pedagógica não deveria ser apenas:

“Quantos pontos ela perdeu?”

A pergunta deveria ser:

“O que aconteceu ali?”

O colega riu ou se incomodou? A brincadeira foi compartilhada ou invasiva? Houve escuta? Houve reparação? Houve repetição? Houve mediação? O aluno percebeu o limite do outro? O adulto enxergou potência ou apenas indisciplina?

É nesse intervalo que a educação acontece.

Não no ponto. Não no ranking. Não na punição automática.

Acontece no olhar.

Foi por isso que escrevi A eVUCAção do Século XXI — Método do Olhar, obra da qual já distribuí cerca de 100.000 cópias gratuitamente em versão e-book, e que em breve estará disponível em plataformas digitais como o Amazon Kindle e também em versão impressa, em formato “Antologia”, com suas mais de 500 páginas.

Porque acredito que o maior desafio da escola não é apenas engajar o aluno.

É compreendê-lo.

Engajamento sem compreensão pode virar adestramento. Tecnologia sem olhar pode virar controle. Gamificação sem pedagogia pode virar ”Another Brick in the Wall” com interface bonita.

E talvez esse seja o nosso risco contemporâneo: chamar de inovação aquilo que apenas torna mais eficiente a velha tarefa de adaptar crianças a moldes.

A educação do século XXI não pode se contentar em perguntar quem ganhou mais pontos.

Ela precisa perguntar:

Que repertório apareceu aqui? Que potência está escondida nesse gesto? Que assincronia existe entre esse aluno e o ambiente? Qual é o custo emocional de caber nessa regra? Que mediação transforma energia em desenvolvimento? Que limite educa sem apagar a criatividade?

O aluno inquieto pode ser problema.

Mas também pode ser potência sem forma. Pode ser inteligência divergente. Pode ser liderança bruta. Pode ser criatividade ainda sem linguagem ética.

A escola precisa ajudá-lo a dar forma a isso.

Não esmagar.

Não premiar apenas quem se adapta melhor.

Não transformar comportamento adequado em sinônimo de desenvolvimento integral.

Porque uma criança quieta nem sempre está aprendendo. Uma criança obediente nem sempre está se desenvolvendo. Uma criança pontuadora nem sempre está inteira.

E uma criança arteira nem sempre está errada.

Talvez ela esteja apenas nos lembrando que educar não é fabricar tijolos iguais.

Educar é olhar.

E olhar dá trabalho.

Muito mais trabalho do que pontuar.